Vivemos em uma sociedade que valoriza o emagrecimento. Sendo assim, a época em que vivemos vários significados são atribuídos ao que deve ser compreendido e assimilado como ?qualidade de vida?, como um direito social, assegurada pela prática da saúde. O corpo na atualidade foi reduzido a uma máquina, que da base esquemática ao fluxo de informações entre o organismo do indivíduo e sua consciência. Para entender esse fluxo recorre-se à complexa relação entre problemas sociais, particulares, históricos, psicológicos, etc.
Um problema corporal atual é a obesidade mórbida, caracterizada inicialmente pelo calculo do IMC (Índice de Massa Corporal) que é obtido pelo resultado da divisão do peso pela altura ao quadrado, se o resultado for de 40 ou mais, tem-se aí um enquadre de obesidade mórbida. As pessoas que se localizam nesse quadro geralmente apresentam problemas graves de doença como dificuldade respiratória, hipertensão arterial, apnéia obstrutiva do sono, dificuldade de sustentação do peso, maior risco de câncer e problemas de ordem emocional e social.
Há aproximadamente quinze anos no Brasil foi introduzida a cirurgia bariátrica como forma de combater a obesidade mórbida, sendo utilizadas basicamente três tipos: os de ordem restritiva (Banda gástrica), disabsortiva (Scopinaro) e mista (Capella), com o objetivo principal de promover o emagrecimento das pessoas.
Historicamente é um processo muito recente, o que necessita de mais estudos aprofundados que possam esclarecer os seus efeitos, tanto nos indivíduos que se submetem ao processo, como seus familiares e a sociedade como um todo. Com isso o objetivo não é o de criar um ceticismo derrotista, mas de identificar quais as condições necessárias para que essas pessoas possam formar a sua identidade de maneira mais livre, podendo escolher o seu projeto de vida. Geralmente no primeiro ano pós-cirúrgico as pessoas ficam numa fase de euforia, pois só ouvem elogios em relação ao emagrecimento. Já no segundo ano geralmente ocorre uma fase mais complicada, pois todos já acostumaram com essa nova forma física e o equilíbrio emocional pode ficar comprometido. O alimento só pode ser ingerido em pequenas porções e se insistir as pessoas podem acabar vomitando. As pessoas passam também a ser mais assediadas sexualmente e muitas vezes não sabem ?lidar com isso?, alguns casamentos também passam por grandes transformações, pois o contrato anterior não vale mais nesse novo período de vida. Na maioria dos casos existe a necessidade de mais bisturi, ou seja, pelo fato de sobrar muitas peles decorrentes da cirurgia bariátrica, geralmente existe a necessidade dessas pessoas procurarem a cirurgia plástica.
Passar por todo essas técnicas faz com que as pessoas necessitem compreender melhor o processo de metamorfose. A personagem obesa mórbida deve ?morrer? para que uma outra personagem possa se concretizar em sua vida, processo morte-vida. Esse processo se dá pela forma pela qual as pessoas mediam a sua existência pelos personagens internalizados na sua história de vida. No livro Magro e agora? (Ed. Vetor), encontra-se em um dos depoimentos de pessoas que se submeteram a cirurgia bariátrica a seguinte fala; que deveria existir uma ?cirurgia de cabeça? para que essa transformação pudesse ocorrer.
Como esse processo ainda não existe (cirurgia de cabeça) ainda fica a questão. Esse processo é uma enganação ou uma fantasia? Acredito na segunda indicação, pois a maioria das pessoas fantasia que com a realização apenas da cirurgia bariátrica elas poderam ser felizes, mas este processo não se da apenas por um procedimento cirúrgico, mas sim pela responsabilização da sua existência que é um processo autônomo.
*Francisco Carlos Gomes dos Santos, psicólogo clínico (CRP38932), é mestre em Psicologia Social PUC-SP (www.emagrecimento.net)
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