O Vaticano defendeu a iniciativa da editora Doubleday de publicar o novo livro do Papa Bento XVI nos Estados Unidos. O Vaticano veio a público para responder ao jornal conservador Il Giornale, que criticou o fato de o lançamento estar sendo feito por uma editora que faz parte de uma grande holding que detém os direitos de publicação do polêmico best seller "O Código da Vinci" de Dan Brown", obra que foi duramente combatida pela igreja católica em todo o mundo. Bento XVI é considerado um teólogo e autor atuante, como o cardeal Joseph Ratzinger. "Jesus de Nazaré" é o primeiro livro publicado por Bento XVI na condição de papa. O diário conservador italiano publicou em sua primeira página uma manchete em que chama o livro do pontífice de um "Código Ratzinger" destinado a combater os efeitos "nefastos" do "Código Da Vinci". O fato de a editora Doubleday pertencer ao mesmo grupo que editou o livro de Brown foi criticado duramente por membros da igreja e da organização conservadora Opus Dei. Eles consideram uma afronta a história narrada por Brown. Vários cardeais advertiram publicamente que o livro de Brown coloca as pessoas contra Catolicismo. Em novembro, foi anunciado uma acordo firmado entre a editora do Vaticano e a editora italiana Rizzoli, concedendo os direitos mundiais da nova obra de Bento XVI. A Rizzoli, por sua vez, fechou um acordo tranferindo os direitos de edição para a América do Norte à Doubleday. A Editora Vaticano esclareceu, em nota à imprensa, que a Doubleday já publicou vários trabalhos de cunho católico, incluindo obras dos papas João XXII e João Paulo II, além de produzir o "O Catecismo da Igreja católica." "Por causa deste currículo editorial respeitoso, a Doubleday manifestou o desejo de também publicar o primeiro livro de Bento XVI", destacou a declaração. "Além disso, é importante notar que a Doubleday sempre publicou os documentos mais importantes da Conferência de Bispos americana antes do estabelecimento pelo posterior de sua própria editora." O papa Bento XVI disse que o livro é um trabalho puramente pessoal sobre Jesus Cristo. Em um trecho do prefácio, divulgado pelo editor italiano, o papa disse que sua obra não é "um ato oficial da igreja. Por isso, "todos estão livres para me contestar", conclui Bento XVI.
O polêmico Da Vinci
O livro "Código Da Vinci" (Da Vinci Code) já ultrapassou a marca de 100 milhões de leitores ao redor do mundo. Católicos, protestantes e estudiosos das religiões não hesitaram em assegurar de que se trata de uma afronta à figura histórica do Jesus de Nazaré. Críticos literários argumentaram que se trata de uma obra de ficção.
O autor, Dan Brown, sustenta que as teorias incluídas na história têm valor histórico. Como o livro figurou seguidamente na lista dos mais vendidos no mundo inteiro, Igrejas, teólogos, historiadoires e autores diversos lançaram novos livros, que prometem interpretar, dar uma visão realista ou simplesmente rebater as idéias e teses contidas em "O Código Da Vinci". O livro versa sobre o mistério do assassinato de várias pessoas ligadas a um segredo mantido por séculos por uma organização secreta. A origem da trama está relacionada com as tentativas para descobrir um segredo sobre a vida de Cristo que a sociedade clandestina tentou proteger durante séculos. O segredo consiste na maior polêmica do livro, que é o fato de seu enredo sustentar que Jesus teve mulher e filhos.
Luz sobre a Opus Dei
Outro ponto que despertou polêmica em todo mundo foi o papel desempenhado pela organização ultraconservadora católica Opus Dei na trama. O papel de "vilã" na obra de Dan Brown tirou a Opus Dei de sua posição discreta e avessa à curiosidade pública. A obra de Dan Brown atribui à Opus Dei o papel de antagonista da sociedade secreta que tenta proteger o segredo. E como qualquer obra de ficção, a história tem assassinatos, lutas, intrigas e perseguições. No livro, a Opus Dei estaria por trás das manobras para destruir as evidências do "segredo".
Um monge de nome Silas é encarregado de assassinar os membros de uma antiga irmandade para preservar o "terível segredo". Após cumprir suas missões, o monge tira o hábito religioso deixando à mostra o cílicio (uma cinta de couro com pontas de ferro voltadas para dentro), que lhe fere a coxa e chicoteia impiedosamente o próprio corpo nu. Embora seja um livro de ficção, a obra de Brown não foi poupada pór vários críticos, que apontaram alguns "erros", como o fato de os membros da Ordem não usarem hábitos nem residirem em "conventos".
Mas o efeito mais indesejado de "O Código Da Vinci" foi o aumento da visibilidade da Opus Dei. Logo surgiram outros livros, alguns deles lançados no Brasil, na esteira do sucesso de "O Código de Da Vinci", que confirmaram as práticas de seus membros, como a autoflagelação com o cilício.
Imprecisões à parte, além da discussão sobre dogmas católicos, o livro de Dan Brown desencadeou um outro efeito indesejado ao conservadorismo católico. A grande maioria dos leitores certamente jamais tinha ouvido falar da Opus Dei antes do livro. Até o lançamento da obra, e do filme que o sucedeu com a significativa receita de quase US$ 1 bilhão, poucos tinham se dado conta do papel expressivo desempenhado pela Opus Dei junto às elites política, econômica, cultural e os donos da mídia de vários países.
Surpreendentemente, Dan Brown não enfrentou nenhum processo judicial pelas "heresias" históricas e por envolver a Opus Dei em sua histótia. Ele enfrentou um processo na Inglaterra por suposto plágio, movido por Michael Baigent e Richard Leigh, autores de "O Santo Graal e a Linhagem Sagrada". Baigent e Leigh perderam a ação, mas já recorreram à Alta Corte de Londres.
Nos Estados Unidos, a Suprema Corte já havia decidido em favor de Dan Brown, em 2006, em uma ação movida pelo escritor Lewis Perdue.
Mais livros
Na esteira do sucesso de vendas de "O Código Da Vinci", no Brasil foram publicados diversos livros contestando e "interpretando" a obra de Dan Brown. E foram publicados três livros escritos por brasileiros contra a Opus Dei, com variadas denúncias.
Também chegaram às livrarias obras defendendo a Opus Dei, acompanhados de novas polêmicas. A mesma editora Doubleday que lançou "O Código" e agora publicará o livro do papa teria entrado em entendimento com o Opus Dei para aposta na obra escrita pelo correspondente da CNN no Vaticano, John Allen Jr.
Lançado no ano passado com o título Opus Dei, os Mitos e a Realidade, o livro fornece informações consideradas precisas sobre a Opus Dei. Por esta razão, houve quem dissesse que o livro teria sido "encomendado" para fazer a contraposição ao estrondoso sucesso da obra de Dan Brown.
|